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Meu filho tem o hábito de morder; o que fazer?

Escrito por Marielly Campos

Comportamento pode causar constrangimento com os pais, mas hábito pode ser uma forma de expressão

Marielly Campos

Nomear os sentimentos da criança pode ajudar a minimizar o hábito – Foto: Amanda Catherine/Pixabay

Por volta de dois anos de idade, algumas crianças iniciam o hábito de morder. A situação deixa muitos pais de cabelo em pé. Eles mordem os amiguinhos, mordem os parentes, mordem quem vier pela frente. Entretanto, nem sempre essa atitude significa alguma situação de raiva ou estresse, pode ser até mesmo uma demonstração até de carinho.

De acordo com a psicóloga Marcia Cristina Fernandes, especialista em psicologia infantil pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), “o primeiro contato da criança com o mundo foi através da boca, pelo seio materno ou mamadeira, onde teve o prazer da fome saciada e do carinho recebido”, explica.

“Na medida em que a criança vai crescendo, ela tende a levar à boca tudo o que deseja conhecer (como, primeiramente, suas mãozinhas, os pezinhos, os dedos da mãe e aos poucos os brinquedos, objetos que a cercam e até mesmo pessoas)”, completa a psicóloga.




Ao chegar à fase dos dois a três anos – em algumas crianças esse comportamento pode se desenvolver mais cedo – a mordida surge como forma de expressão e comunicação daquilo que elas estão sentindo. Esse sentimento pode ser algo ruim, como a frustração, ou ainda de alegria ou descoberta.

Isso acontece porque a criança está desenvolvendo a comunicação oral e ainda não é capaz de demostrar tudo o que precisa por meio da linguagem. Além das mordidas, empurrões ou puxões de cabelo também podem ser meios usados pelos pequenos.

“Cada vez que a criança se comunica desta maneira, ela está muito atenta à reação daqueles que estão ao seu redor, avaliando se desta maneira atingirá seu objetivo, ou seja, se conseguirá o que quer”, afirma a psicóloga.

Em casa

No ambiente familiar, a ação geralmente ocorre em momentos em disputa entre irmãos, quando a família engravida ou quando há uma perda significativa, por exemplo. São momentos que tendem a causar ciúme, medo ou insegurança. Na escola, explica Marcia, “ocorre em situações muito parecidas, entretanto, mais intensas ou recorrentes, já que o número de ‘rivais’ (coleguinhas, não mais irmãos) é maior”.

Mas, o que fazer?

A especialista ensina que, em um primeiro momento, os pais devem ter em mente que as crianças tendem a imitar o comportamento do adulto. O hábito de mordiscar partes do corpo do bebê durante uma brincadeira, um momento de carinho, pode ser copiado pelos pequenos. Sem se dar conta, os adultos estão ensinando que a boca pode ser usada para brincar ou acarinhar. Com isso, ela afirma: “brincar de mordiscar não pode”.

Ainda segundo Marcia Cristina, o adulto deve observar e nomear o comportamento da criança que levou àquela reação. Por exemplo, se ela parte para a mordida após um coleguinha ou irmão negar um brinquedo, o adulto deve dizer que sabe que a criança ficou com raiva porque não conseguiu o brinquedo, mas que não é certo morder, pois o colega ou irmão vai ficar muito triste.

“Lembrando que a criança aprende por repetição, há que se ter paciência e insistência para que pouco a pouco ela aprenda a controlar seus impulsos e a nomear o que sente”, salienta a psicóloga.

Os pais e a escola

A escola tem um papel importante nesta fase. É preciso que pais e a instituição estejam sempre alinhados com as necessidades de cada criança. A comunicação deve acontecer de maneira clara, honesta e coerente.

“A mordida na escola é sempre uma situação bastante difícil, pois os familiares da criança que morde tendem a se sentirem envergonhados e os familiares da criança que é mordida ficam muito chateados”, diz a especialista.

Desta forma, a escola tem o dever de ensinar as regras de convivência às crianças e também de mediar as relações entre elas e seus pais. Não devem expor a criança que mordeu, devem ajudar a minimizar os sentimentos negativos, estabelecer regras e fazer valer esses limites.

A hora de procurar ajuda

Apesar de se tratar de um comportamento normal alinhado à fase da criança, há situações em que a mordida e as comunicações “agressivas” precisam da ajuda de um profissional. Isso acontece porque a criança pode estar com sentimentos negativos com os quais não consegue lidar e tentam chamar a atenção por meio deste comportamento mais enérgico.

“Nestes casos, a família e a escola precisam intensificar a atenção e o acompanhamento para detectar possíveis causas destas atitudes. E, percebendo que a criança está com questões emocionais que merecem uma atenção maior, é importante buscar a ajuda de um psicólogo”, finaliza Marcia.







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